Revista Ciencias de la Actividad Física UCM. N° 26(2), julio-diciembre, 2025. ISSN: 0719-4013
   
Artículo Investigación

Luta Tarracá: uma manifestação originária da cultura do Maranhão no Brasil

Tarracá Wrestling: an original manifestation of Maranhão culture in Brazil

Lucha Tarracá: una manifestación original de la cultura de Maranhão en Brasil

Borba-Pinheiro, Claudio J.1; Nunes, Hudson F.2; Linhares, Diego G.3; Saraiva, Alam dos R.4; Campos, Ítalo S.5 & Drigo, Alexandre J.6



Borba-Pinheiro, C. J., Nunes, Hudson F. P., Linhares, D. G., Saraiva, A., Campos, Í. S. L., & Drigo, A. J. (2025). Luta Tarracá: uma manifestação originária da cultura do Maranhão no Brasil. Revista Ciencias de la Actividad Física UCM, 26(2), 149-164. http://doi.org/10.29035/rcaf.26.2.10

RESUMO

Caracterizar os aspectos relacionados a origem, ao objetivo da luta, as técnicas usadas, regras básicas e desfecho da luta Tarracá do Maranhão. Relato de caso descritivo, tendo como participante um idoso aposentado de 86 anos, pescador de profissão. A avaliação foi realizada em forma de entrevista com um roteiro de perguntas direcionadas a temática estudada. A avaliação dos dados foi pela técnica de análise temática em seis etapas. A análise mostrou que a luta Tarracá tem um caráter lúdico de brincadeira, com aspecto competitivo de habilidades para medir força e coragem com golpes de projeção e imobilização, além de uma expressão da história e cultura local com o fortalecimento de amizades e laços comunitários. A luta Tarracá é uma manifestação endêmica da cultura da baixada maranhense que tem caráter lúdico realizada pelos jovens do passado com objetivo de usar habilidades de desequilíbrio com golpes para prender, derrubar e imobilizar na areia dura ou mato roçado.
Palabras clave: Lutas; Esportes de combate; Cultura popular; Atividade de lazer.



1 Instituto Federal do Pará, Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-9749-5825, borba.pinheiro@ifpa.edu.br
2 Instituto Federal de São Paulo, Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-9321-0263, hudsonfpnunes@gmail.com
3 Universidade Estácio de Sá, Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-2901-3273, diegamalin@gmail.com
4 Instituto Federal do Pará, Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-7196-1947, alam.reis@ifpa.edu.br
5 Universidade Federal do Pará, Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-0761-6575, italo@ufpa.br
6 Universidade Estadual Paulista, Brasil.
https://orcid.org/0000-0001-8744-1914, alexandredrigo@hotmail.com

ABSTRACT

To characterize the aspects related to the origin, the objective of the fight, the techniques used, the basic rules and the outcome of the Tarracá Wrestling in Maranhão. Descriptive case report, with the participant being an 86-year-old retired man, a fisherman by profession. The evaluation was carried out in the form of an interview with a script of questions directed to the theme studied. The data were evaluated using the thematic analysis technique in six stages. The analysis showed that the Tarracá Wrestling has a playful character, with a competitive aspect of skills to measure strength and courage with throws and immobilization, in addition to an expression of local history and culture with the strengthening of friendships and community ties. The Tarracá Wrestling is an endemic manifestation of the culture of the Maranhão lowlands that has a playful character performed by young people of the past with the objective of using unbalancing skills with blows to trap, knock down and immobilize on hard sand or brush.
Key words: Wrestling; Combat sports; Popular culture; Leisure activity.

RESUMEN

Caracterizar los aspectos relacionados al origen, el objetivo de la lucha, las técnicas utilizadas, reglas básicas y desenlace de la lucha de Tarracá do Maranhão. Informe descriptivo de caso, teniendo como participante a un hombre de 86 años, jubilado, de profesión pescador. La evaluación se realizó en forma de entrevista con un listado de preguntas dirigidas al tema estudiado. La evaluación de los datos se realizó mediante la técnica de análisis temático en seis etapas. El análisis mostró que la lucha de Tarracá tiene un carácter lúdico, con un aspecto competitivo de habilidades para medir fuerza y coraje con golpes de proyección e inmovilización, además de una expresión de la historia y cultura local con el fortalecimiento de amistades y lazos comunitarios. La lucha de Tarracá es una manifestación endémica de la cultura del bajo Maranhão que tiene un carácter lúdico realizada por jóvenes del pasado con el objetivo de utilizar habilidades desequilibrantes con golpes para atrapar, derribar e inmovilizar sobre arena dura o maleza.
Palavras chave: Lucha; Deportes de combate; Cultura popular; Actividad de ocio.

INTRODUÇÃO

As manifestações corporais na forma de lutas são encontradas em diversas culturas existentes em todo o mundo (Correia & Franchini, 2010). No entanto, cada modalidade, agrega características específicas a partir de suas origens, tradições, movimentos e técnicas de combate (Campos & Gouveia, 2020; Simões et al., 2021). No Brasil, essas manifestações podem ser idealizadas por motivações distintas, que envolvem necessidades de movimentação corporal para diversão, como as lutas com características de um jogo lúdico, características festivas e ritualísticas, além daquelas com características marciais devido a necessidade de guerrear (Junior et al., 2017; Pereira & Souza, 2021; Branco Telles et al., 2022; Mariante Neto & Vasques, 2024). A amplitude as manifestações de lutas, mostram que elas ultrapassam o ato mecânico, se estendendo a outras distintas possibilidades para a formação humana que incluem, mas não se limitam aos estímulos motores, estímulos para integração e inter-relação das pessoas em comunidades, formação de cultura popular regional e também para conteúdos escolares (Mocarzel et al., 2023).

Tradicionalmente, as lutas foram introduzidas no Brasil pela cultura oriental e em consequência disso, o imaginário direciona para um conjunto de técnicas organizados destinadas ao ataque e defesa para guerrear. Na atualidade, as lutas foram progressivamente esportivizadas, passando por diferentes processos de institucionalização, nos remetendo as artes marciais ou aos esportes de combate oriundo delas (Drigo, 2009; Drigo et al., 2011; Campos & Gouveia, 2020; Simões et al., 2021).

Em outra direção, as lutas que tem características de um jogo lúdico podem ser muito antigas, sendo encontrados em registros rupestres no nordeste brasileiro (Paiva et al., 2022). Esse tipo de luta pode ter sido menos valorizado ou mesmo não ter sido considerada luta, por não apresentarem as características orientais (Mariante Neto & Vasques, 2024). Nesta direção, uma luta com característica lúdica, foi identificada na região do Marajó como é o caso da “Luta ou Agarrada Marajoara” (LM). De acordo com Antunes, et al. (2021a), a supracitada luta, é genuinamente brasileira, originária das necessidades corporais dos pescadores e vaqueiros com influência das lutas indígenas e também dos negros brasileiros.

Assim, sua prática no passado está intimamente associada ao cotidiano de trabalhadores rurais ou vaqueiros das antigas fazendas da região marajoara, enquanto forma de diversão, aquecimento do corpo antes de uma jornada de trabalho, na pescaria ou vaquejada, além dos possíveis desafios/apostas para saber quem derrubava o oponente na areia, na grama ou até mesmo na lama. Na verdade, todas essas questões levantadas em instâncias nativas são demandas que vem sendo discutidas academicamente em estudos envolvendo a modalidade (Santos & Freitas, 2018; Seabra et al., 2020; Santos et al., 2023).

As lutas que possuem características lúdicas, entre elas o combate de cabo de guerra usada por várias tribos indígenas como um ritual para medir a força dos guerreiros em festejos das tribos, como o caso endêmico dos Parakanã da região Norte. Mas também inter-tribos na região do Xingu como a luta Huka-huka apresentada em jogos indígenas, além da luta Kaingang no estado do Paraná (Ramon & Freire, 2011; Junior et al., 2017; Pereira & Souza, 2021; Dos Santos & Dos Santos, 2020; Paiva et al., 2022).

Nesta perspectiva, a luta Tarracá, endêmica do estado do Maranhão, em especial nas localidades ribeirinhas do norte maranhense, merece ser valorizada, pois há pouquíssimos estudos publicados na literatura científica sobre esta importante manifestação cultural da região nordeste do Brasil e os trabalhos existentes que abordam essa temática com trabalhos de relato de experiências, portanto, com pouco valor científico (Farias, 2023; Mariante Neto & Vasques, 2024).

O termo Tarracá ou Atarracar que de acordo com Farias (2023), Mariante Neto & Vasques (2024), significa apertar, agarrar ou ainda tornar preso, é usado, corriqueiramente, em cidades do interior do Maranhão para indicar o objetivo da luta que é agarrar para derrubar. Entretanto, levantamentos sobre a modelagem técnica da luta são ainda inconclusivos, necessitando de mais estudos para uma melhor constatação dessas informações. Dentro de um contexto de poucas informações científicas e muitas lacunas, o presente estudo tenta buscar, acadêmica e cientificamente, elementos que possam ampliar o arcabouço cultural do Tarracá, justificando assim sua importância científica para o estudo das lutas corporais brasileiras.

Com essa problemática, elaborou-se o seguinte problema de pesquisa: quais as características associadas a comunidade, relações interpessoais, contribuição cultural regionalizada da luta Tarracá? E, diante disso, o objetivo deste estudo foi caracterizar os aspectos relacionados a contribuição cultural regionalizada, de características comunitária, para interações pessoais, além das técnicas e regras básicas da luta Tarracá no Maranhão.

MÉTODOS

A pesquisa foi caracterizada como um relato de caso descritivo com abordagem qualitativa e natureza antropológica (Thomas et al., 2012). O participante deste estudo foi um homem idoso com 87 anos de idade, com 1,70m de altura e 89 kg de massa corporal total.

O participante nasceu no ano de 1938 em uma vila chamada Camará-MA, onde passou a infância e adolescência, depois em 1962 residiu com a família (esposa e filhos) na ilha de Cajual dos Pereiras/Alcântara-MA localizada entre as coordenadas 44°31’07,54” O e 02°25’36” S e 44°26’47” O, e 2°32’22,29” no litoral maranhense (hoje submersa, mas com uma ponta de areia usada como ponto de apoio por pescadores) (Martins de Araújo 2024). O participante também frequentava a vila do Itereré e Turirana nas proximidades da cidade de Apicum-Açu no Norte do Maranhão, para o comércio de peixes, abastecimento de mantimentos, coleta de água de olho d’agua para beber, além de jogos de futebol e luta Tarracá como lazer.

O participante idoso tinha sua atividade laboral associada a pesca e mercador barqueiro, ou seja, levava e trazia mercadorias de barco para diferentes localidades, inicialmente, no litoral maranhense. Posteriormente, para o litoral do Pará e Amapá em 1958, em 1973 mudou-se com a família para cidade de Belém-PA, onde fixou residência. Na década de 1980 passou a atuar como pescador profissional na costa litorânea do Amapá e Guiana Francesa com foco nos peixes: pescada amarela e gurijuba, neste último, para extração do “grude” que é um material orgânica localizado na bexiga do peixe, usado na indústria para argamassa de Cal e também para fins de exportação em países asiáticos. Atualmente, o participante é aposentado e reside com a família na cidade de Belém-PA.

Ética da pesquisa
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética institucional sob o parecer nº 1.940.414 cumprindo todos os critérios para pesquisa realizada com seres humanos. Após as informações sobre a participação voluntária na pesquisa e sobre a confidencialidade decorrente das informações coletadas, o participante assinou um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), onde sua identidade foi preservada, entre outros fatores associados a confidencialidade, riscos e benefícios, como orienta os princípios éticos em pesquisa descritos nas Resoluções nº 466/21 e nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde. (Brasil, 2016).

Coleta de dados
Para avaliar os indicadores antropométricos de estatura e de massa corporal, foram utilizadas as padronizações sugeridas por Guedes (2006). Para a aferição da medida de massa corporal (kg) foi utilizada uma balança antropométrica analógica da marca Welmy® com capacidade de 150 kg e com precisão de 100g. Para a medida de estatura (cm) foi utilizada uma fita métrica (Fiber Glass®), fixada na parede plana, com precisão de milímetro.

Em relação a entrevista, esta foi elaborada a partir de perguntas norteadoras sobre a temática estudada, usando um gravador de áudio por meio de um telefone celular Moto G®73 5G. Para a transcrição dos áudios foi usado o App Clipto.AI® de forma gratuita. A entrevista foi realizada no mês de junho de 2024 na cidade de Belém-PA por pesquisadores experientes.

Procedimento de avaliação
Análise temática
A análise temática, descrita por Braun & Clarke (2006) é um método de análise de dados qualitativos de textos advindos de questionários ou entrevistas, que permite identificar, categorizar e interpretar padrões e temas. Os principais objetivos da análise temática são: identificar padrões recorrentes dos dados e codifica-los; compreender significados e interpretações; desenvolver temas, subtemas e conceitos que expliquem os dados; estabelecer relações entre os temas identificados.

Análise temática pode ser de três tipos: análise temática indutiva (considera os dados para desenvolver teorias); análise temática dedutiva (considera teorias pré-existentes para interpretar os dados; e análise temática mista (realiza a combinação de elementos indutivos e dedutivos. O processo desta análise proposto por Braun & Clarke (2006) se divide em seis fases ou etapas: 1) leitura e familiarização com os dados; 2) geração de códigos iniciais (palavras, frases e parágrafos); 3) agrupamentos de códigos que orientem a proposição de temas; 4) revisão de temas e criação de subtemas; 5) definição e nomeação de temas, subtemas e criação de tópicos; 6) produção de relatório (interpretação e discussão dos resultados). A análise temática apresenta algumas vantagens ao explorar dados e tematizá-los de forma complexa e profunda através da identificação de padrões de códigos. Por outro lado, apresenta limitações como a dificuldade de generalizar resultados, dependência do pesquisador e/ou viés na seleção de dados.


RESULTADOS

Os dados dos áudios resultantes na transcrição da entrevista estão apresentados na Tabela 1. As perguntas norteadoras dos pesquisadores estão seguidas, imediatamente, pelas respostas na íntegra do entrevistado. Estes dados foram usados para realização da análise temática.

Tabela 1.
Análise qualitativa dos áudios da entrevista

E Entrevista com M.P, 87 anos, ex-morador da Ilha do Cajual dos Pereiras, sobre a luta Tarracá
E Sr. M.P, como a luta Tarracá se desenvolvia lá no Cajual dos Pereiras?
P Bem! A gente convidava o colega pra brincar. Vamos aquecer, dar uma brincada pra tomar banho. A gente ia lutar na areia.
E Tomar banho na maré?
P Tomar banho na maré, ia pra areia lutar!
E Servia também para antes de sair para pescaria?
P Não. Na pescaria, quando a gente botava a zangaria (método de pesca artesanal) no lavado seco, a praia seca, a gente ia lutar lá, brincar!
E Servia também como desafio? Pra desafiar o outro?
P Às vezes... ás vezes, a gente brigava mesmo, era pancada seca mesmo. Às vezes, acontecia.
E Entendi (risos)! Como terminava a luta?
P Terminava como começava. Quando não era de briga, terminava bem!
E Terminava quando cansava?
P É, só quando cansava.
E Tinha alguma vez que alguém desistia?
P Quem apanhava desistia. Porque não podia lutar. Quando o cara me botava embaixo, e me pegava, não dava pra sair, tinha que desistir. E quando eu colocava o cara embaixo, que atravessava o peito dele, ele não saia debaixo de mim, de jeito nenhum. Ai, ele desistia! A mesma coisa... eu gosto de ver judô, luta de MMA: quando o sujeito bota o outro embaixo e imobiliza ou estrangula, tem que bater né! Porque ele não sai de baixo, tá seguro, e assim a gente fazia lá na praia.
E Não tinha um ponto, tipo a luta marajoara, caiu de costas é ponto. Não tinha uma regra?
P Não! Era no interior, nem sabia dessas coisas de luta. Ninguém sabia de outras lutas, MMA nem existia nessa época.
E O sr. lembra se os seus pais ou se os seus avós lutavam?
P Meu pai era bobo, não sabia nem pisar no chão.
E Mas, tinha luta na época deles?
P Não, não sei. A luta do meu pai era na pistola. Ele não tirava o revólver do coldre. Não sabia lutar, era bobão (risos). Não sabia pescar também, não pisava no chão, não tirava a bota do pé.
E O sr. lembra de nome de golpes?
P Pra derrubar, quando eu lutava, que eu me agarrava com o outro, era trazer pra cima de mim na força e meter-lhe a “canga pé” nele e jogar!
E Mas, tinha um nome?
P Canga pé, esse era o nome.
E Tinha algum outro nome de golpe?
P A baiana. Sabe o que é baiana?
E Baiana é a cabeçada?
P Não, a baiana, eu te pego por cima das costas, por debaixo dos teus braços e te jogo pra trás. Cai lá pra trás, longe de mim.
E E a puxada de pé? A raspada de pé?
P É a canga pé!
E É uma rasteira?
P A rasteira é por aqui, e a canga pé é por trás das suas costas, pegando pelas duas pernas e plau no chão! Cai lá prá trás!
E Tem mais algum nome de golpe que o sr. lembra?
P A pessoa não escapa da queda. A cabeçada, tinha lá um “pretinho”, com apelido Chico Cúduro, ele era menor do que nós na época. Eu, Chico, Cassiano, Mudiquinho, Zé Pretinho, Catita, é. Neguito ... era a nossa turma lá da rapaziada. Ele era tão danado na cabeçada que você levantava o pé e já estava no chão. Ele era danado!
E A cabeçada era na barriga?
P Na perna. Tu muda o pé em cima de mim e vape debaixo, e já vai pra trás, levanta da minha altura. Pra levantar o peso, só parece pesado o homem pegando outro na cabeçada se não for no tempo, entendeu? Tem que ser no tempo. Ele avançou e pá e já levantava do chão. Porque se parar, pesa muito, aí não sobe, entendeu? Isso é fácil, como eu vejo essas lutas. Fica assim olhando. O caboclo levanta o pé pra bater na cara do outro e o outro cai lá de cara. Comigo, duvido que ele ficasse em pé. Fica com uma perna embaixo e a outra lá em cima. Quer bater na minha cara, nessa hora eu entrava debaixo dele e metia o braço por entre das pernas e levantava da minha altura e batia no chão. Tinha vezes que nem se levanta mais! Que a queda era forte.
E E lá todo mundo tinha apelido? E o seu apelido, qual era?
P Lá todo mundo tinha. O meu era Belisco.
E Belisco de beliscar?
P (Risos) ... E eu não era dos bons, tinha gente muito melhor do que eu pra lutar.
E Tinha muito negro?
P Tinha! Lá no Camará onde eu nasci e Itereré, onde tinha as festas grandes, aí tinha Abílio, Jaime, Jomendes, Marcelo Lope, Geturino, Dema Araújo, tinha mais outros. Esse pessoal lutava de 4h da madrugada até 10h do dia. O pessoal lutava na pancada seca mesmo. O Abílio não era bom de luta, ele era um negão forte, era courudo, caboclo batia nele até cansar o braço, ficava só apanhando. Quando eu vejo, ele pulava pra cima do outro e metia a pancada, faltava só ele “matar” (risos), ele era grande. O Jaime Preto, irmão de Jomendes, era outro danado e courudo. Não era de destreza, de rapidez, ele era como um búfalo grande quando vai dar uma chifrada no outro. Se ele te pegava pelo meio, te botava no chão rápido.
E Era a diversão de vocês?
P Era isso mesmo. Eu era moleque, ia lá pra dentro na beira, passando lá no Tereré, debaixo daqueles paus de igaratá quebrado. Ali eles roçavam o mato, parecia que tinham dormido uns 100 bois, só das costas dos negos ali, eles brigavam (risos).
E E o Sr. sabe ou lembra o que significa a palavra Tarracá? O que ela quer dizer?
P Não sei! Porque a gente inventou isso lá. Era a nossa diversão de brincar. Era uma brincadeira nossa. Ia jogar bola no campo de lama, e quando terminava de jogar bola, ia lutar arracá.
E Esse nome não tinha antes? Vocês que deram o nome?
P Não! Já tinha esse nome antes. Jogar peão, a gente fazia peão de coco babaçu, tem uns cocos grandes. Ele tem um lugar no bico que dá pra cortar, eu sei fazer. Ai a gente pega uma linha de uma braça ou menos um pouco, pra enrolar no bico pra jogar e ele dança, fica correndo e dançando. E quando é pra brincar na cocada você enrola, aponta e pá joga na frente! O outro vai embora! A gente passava a tarde brincando.
E Era as nossas brincadeiras, lutar Tarracá, jogar peão, jogar bola?
P Sim! Tudo era brincadeira. Jogar sopapo era outra!
E Como era?
P Sopapo a gente faz da folha do milho, entendeu? Fazia uma roda de timbó, enrola timbó. Você sabe o que é timbó?
E Não!
P É um cipó forte. Faz bem redondinho, amarra e enche de areia no fundo pra pesar, aí pega uma folha de milho e vai fazendo né! Até você ir no fundo e vai amarrando em cima fazendo o rabo. Amarra bem feitinho, ele pesa umas 100 gramas mais ou menos. A gente bate na bunda dele e ele sobe, quando ele desce de cabeça pra baixo o outro emparelha, passa meia hora, uma hora sem ele cair no chão, só dando nele, sopapo (risos)
E Não lembra a palavra Tarracá, de tarraxar, de tornar preso?
P Eu gostava de dar o “mata leão” no cara!
E Mas, o senhor sabia dar mata leão naquela época?
P Han?
E É parecido com mata leão?
P Era parecido...no pescoço, que botava a língua de fora. Pegar por trás assim, jogar, atravessa pelo peito e sai. Isso tem que ser rápido, não é pra pegar passar dois minutos, não! O cara tira o pé da terra e já tá embaixo.
E O que me vem a cabeça: que você derrubava e prendia, era isso? Deixava preso?
P É! Preso. Pegava e atravessava no peito dele, botava a mão pelo pescoço e por baixo do outro braço e segurava. Não sai debaixo. O cara tem uma chance de sair no cumprimento, no meio das pernas do cara, ele tem mais chance.
E E se ele saísse, continuava?
P Continuava!
E Não tinha tempo? Não terminava?
P Não! Um não dava tempo para outro. O que ia pra baixo, tinha que ficar debaixo, e o debaixo tentava passar pra cima e o de cima não saia não.
E Desistia ou os dois paravam quando cansavam?
E A luta não terminava? Ela só terminava quando alguém desistisse ou se alguém ficasse preso ali?
P É porque a gente era jovem né... e não cansava!
E Então ia embora, passava de 20 minutos?
P As vezes passava de 2 a 3h lutando.
E Saia de uma luta e ia para outra?
P É, a gente não sentia nada não! Depois ia para tomar banho na maré, na praia.
Nota. E (entrevistador); P (participante).

Na fase 1 (familiarização com os dados) o tema central identificado é a luta Tarracá, sendo os dados fornecidos através de uma entrevista realizada com o Sr. MP, 86 anos, ex-morador da Ilha do Cajual dos Pereiras.

Na fase 2 (identificação de códigos iniciais) foram identificados os seguintes códigos: luta Tarracá como brincadeira e diversão; importância da força e coragem; técnicas e golpes utilizados (canga pé, rasteira, baiana, cabeçada, chute, enforcada/mata leão), relacionamento com a comunidade e cultura local; a importância da luta Tarracá na vida dos jovens da ilha.

Na fase 3 (desenvolvimento de temas) foram propostos temas iniciais como: luta Tarracá como forma de diversão; importância de competir com força e coragem; técnicas e golpes utilizados; relacionamento com a comunidade; e luta Tarracá como expressão cultural.

Na fase 4 (revisão de temas e criação de subtemas) teve como propósito verificar a coerência entre os temas e categorias, e refinar a análise para garantir que os temas sejam claros e precisos. “Tema 1 ludicidade – subtema brincadeira e diversão entre os jovens”; “Tema 2: a importância da força, habilidade e coragem - subtema luta Tarracá como forma de demonstrar força através de golpes”; “Tema 3 relação entre a luta Tarracá e a comunidade - subtema: a importância da luta Tarracá na cultura e na tradição da comunidade”; “Tema 5 a luta Tarracá como expressão cultural – subtema importância da luta Tarracá na cultura local – subtema: luta Tarracá como forma de fortalecer laços comunitários”.

Na fase 5 (definição e nomeação de temas e subtemas) os temas e subtemas definidos foram: “Tema 1 lazer - subtema ludicidade”; Tema 2 competição - subtema golpes, técnicas e estratégias - subtema coragem e força”; Tema 3 cultura comunitária - subtema relacionamento e tradição. A fase 6 concentrou a análise e interpretação dos temas e subtemas. Nesse sentido, essa análise revelou a importância da luta Tarracá enquanto prática corporal de lazer e de aspectos competitivos que envolvem golpes, força, habilidade e coragem. Além disso, destacou a expressão histórica e cultural da Ilha do Cajual dos Pereiras, representada pelo fortalecimento da amizade e dos laços comunitários, construídos através da relação entre a comunidade local e a luta Tarracá.

A Tabela 2 apresenta as técnicas ou golpes com a nomenclatura, descrição básica e ilustrações de acordo com o relatado pelo voluntário desta pesquisa. As ilustrações foram realizadas de acordo com as descrições, usando o software Ibis Paint® X 12.2.11

Tabela 2.
Descrição técnica dos golpes Tarracá

Tipo de ação por seguimento corporal Nome original Descrição Técnica dos Golpes Ilustração
Pés/Pernas Rasteira ou Canga Pé 1 Pegada e desequilíbrio: Domínio da pegada pelos braços/pulsos/ axilas ou ainda sem pegada. Preparação: aproximação de contato com os pés e pernas lateralmente. Finalização: Lateralmente posicionar o pé em uma ou nas duas pernas na altura do tornozelo do adversário.
Canga Pé 2 Pegada e desequilíbrio: Domínio da pegada pelo pescoço ou axilas. Preparação: aproximação de contato com a lateral do tronco e pé de apoio. Finalização: Posicionar da perna dominante por trás, em forma de gancho ou estendida em uma ou nas duas pernas do adversário
Mãos/Braços Cabeçada Pegada e desequilíbrio: Domínio da pegada pela perna ou duas pernas. Preparação: aproximação de contato com a cabeça, braços e troco. Finalização: A perna ou pernas do adversário são puxadas para frente e os ombros/cabeça empurra para trás provocando a queda do adversário
Quadril Baiana Pegada e desequilíbrio: Domínio da pegada sobre a cabeça, ombro e costas. Preparação: aproximação de contato com o quadril e tronco. Finalização: Arremessa o oponente para frente sobre os ombros.
Enforcamento/ Estrangulamento (Pescoço) Sem nome definido/semelhante ao “mata leão” Posicionamento por trás do adversário com o pulso sobre o pescoço do opoente e com mãos sobrepostas.


DISCUSIÓN

A análise mostrou que o Tarracá possui um caráter de prática de lazer com aspectos competitivos envolvendo habilidade para medir força e coragem com golpes de projeção e imobilização. Além disso, o Tarracá também apresentou uma expressão da história e cultura local com o fortalecimento de amizades e laços comunitários.

A luta Tarracá se apresenta como uma prática corporal com motivação lúdica, onde o lazer foi amplamente descrito pelo voluntário deste relato. Esta luta como uma atividade lúdica de combate (ALC) parece ter dominado o principal objetivo desta prática no litoral maranhense. A LM, que se manifesta em localidades ribeirinhas no oeste do estado do Pará, também se apresenta como uma forma de ALC para aquecer o corpo antes de uma pescaria ou para o trabalho de vaqueiro (Lopes Campos, et al., 2019).

Manifestação semelhante, também é encontrada em Portugal com a Galhofa, pais colonizador do Brasil, em que uma luta em forma de jogo lúdico é preservada, tendo o caráter de lazer de diversão e como ritualística de passagem do jovem para idade adulta. O caráter lúdico como medida de força e também como ritual de passagem da adolescência para o adulto guerreiro também são observadas em manifestações de lutas indígenas brasileiras (Junior et al., 2017; Pereira & Souza, 2021).

Neste contexto, essas lutas possuem uma origem lúdica com ausência de características de condutas marciais. Porém, para Coelho & Barreira (2025), a LM deveria ser denominada “Arte Marcial Vernacular”, usando este último termo para caracterizar regionalidade/localidade. O que não é corroborado pelos autores deste estudo, pois parece ser contraditório, pois as lutas marciais, conceitualmente, possuem um caráter militar para guerra e que também possui um simbolismo do imaginário popular provocado pelos filmes de Hollywood (Drigo, 2019), que contrastam com as características das lutas originárias brasileiras de caráter lúdico como o Tarracá que é objetivo desta pesquisa, além da LM.

As técnicas (golpes) de projeção mais usados, de acordo com esta pesquisa (Tabela 2) seguiram uma sequência de busca por uma pegada, um desequilíbrio, uma preparação e posteriormente, um movimento para golpear e tentar derrubar o oponente com as pernas, braços ou quadril, a fim de lançar o oponente ao solo. A rasteira, foi caracterizada como uma varrida de pé feita pela frente. A passada de perna com gancho ou extensão feita com a perna dominante por trás do adversário (Canga Pé). O golpe realizado com o braço feito por sobre o pescoço e ombro do adversário, usando o quadril (Baiana). A cabeçada, carregar com os dois braços segurando e puxando pelas pernas com ombros apoiados na região do abdômen (Cabeçada).

Os golpes ou formas de movimentos usados para derrubar o oponente, podem ter semelhanças com os da LM até mesmo na nomenclatura como a rasteira, além da forma de lutar buscando uma pegada para desequilibrar o oponente para tentar um movimento de pernas, braços ou quadril para derrubar o oponente (Lopes Campos et al., 2019).

As regras básicas do Tarracá podem se assemelhar as da LM (Lopes Campos et al., 2019; Antunes et al., 2021b) e Galhofa de Portugal (Branco Telles et al., 2022), onde não há um tempo limite para a luta. Os participantes no Tarracá só terminavam de lutar por cansaço ou desistência devido a um aprisionamento/imobilização e na maioria das vezes não havia um espaço delimitado. Porém o local deveria proporcionar amortecimento, entre eles: areia seca (dura) e mato roçado. E, no caso da LM a areia, gramado e até mesmo a lama (argila) (Lopes Campos et al., 2019).

O nome Tarracá, de acordo com o participante deste estudo é anterior a prática desta atividade na comunidade e não foi criada por eles naquele período, neste sentido não foi possível atribuir um significado desta palavra e nem uma origem. Porém, o estudo de Farias (2023) afirma que Tarracá é um termo conhecido na região da baixada maranhense, que em princípio era ou ainda pode ser conhecido como atarracar que significa apertar, torcer ou deixar preso. Para a questão de origem, o estudo de Ramon & Freire (2011) que aborda questões semelhantes com uma luta do Paraná/Brasil chamada Kaingang, constatou que a origem desta luta é inconclusiva, carecendo de estudos mais detalhados acerca da luta Kaingang. O que também é recomendado para a luta Tarracá.

Outra questão importante, é o olhar da luta como uma manifestação cultural de importância para a comunidade local, onde as possibilidades das relações interpessoais de amizade e convivência social foram observados no relato do participante. Diante disto, toda essa gama de conhecimento cultural poderia ser usada nas escolas como forma de valorização das manifestações regionais de predominância negra e preservação cultural, como mostrado nos resultados desta pesquisa.

Campos et al., (2019) mostraram que a LM já faz parte do contexto escolar nas instituições de ensino na região de origem e também se apresenta como um conteúdo das lutas regionais. Além disso a LM também é considerada patrimônio imaterial da cultura brasileira pelo IPHAN (Santos et al., 2023), o que atende ao que é preconizado pela Base Nacional Comum Curricular que rege as bases dos conteúdos escolares da educação brasileira (Brasil, 2018).

E, nesta perspectiva o Tarracá deve ser incentivado pelos professores de educação física para que seja incluído nas escolas públicas como parte da unidade temática de lutas e também pelos legisladores para que ao exemplo da LM, seja considerado patrimônio imaterial brasileiro, devido as características histórica e cultural da parte norte do estado do Maranhão na região nordeste do Brasil. Em Portugal, a Galhofa tornou-se um conteúdo do curso de graduação em ciências do esporte na faculdade de educação de Bragança, além de incorporada a federação de lutas amadoras, firmando esta luta originária na cultura local com valor histórico e cultural da região norte deste país (Lopes Campos et al., 2018; Branco Telles et al., 2022).

Uma outra questão importante observada neste contexto era os apelidos ou codinomes, no caso do voluntario desta pesquisa, seu apelido era “belisco” de beliscar, além disso, este voluntário relata que seus parceiros também tinham os seus apelidos. Isso pode sugerir que embora os apelidos sejam uma identificação comum nos interiores brasileiros, isso também é comum no universo das lutas. Para Da Mata Siqueira (2015) o apelido na Capoeira é parte de uma simbologia de valor identitário, tendo em vista que existe um batismo, cujo o codinome tem um importante significado dentro da cultura capoeirista que leva em considerações característica física e de personalidade dos praticantes.

De acordo com Mariante Neto & Vasques (2024) existe uma possibilidade das lutas originárias brasileiras, não serem tratadas como lutas porque não se encaixavam nos princípios das técnicas importadas do oriente, que possuem um definido caráter marcial. Isso pode explicar uma falta de interesse dos primeiros pesquisadores e historiadores em relação as temáticas que envolvem as lutas originárias.

Nesta direção, essa dificuldade de compreensão também aumenta as lacunas sobre as origens destas manifestações que podem ser indígenas, africanas, europeias ou com influência de todas juntas, ou ainda como parte do processo de evolução, e posterior adaptação, a própria humanidade (Lopes Campos & Gouveia-Júnior 2020; Paiva et al., 2022). O que neste sentido dialoga com o estudo de Paiva et al. (2022) que mostra em pinturas rupestres de lutas com características de representação social simbolizando relações étnicas e de convivência no cotidiano pré-colonial brasileiro.

Por fim, ao contrário das lutas Galhofa e LM que conseguiram manter essa atividade como uma manifestação endêmica ativa dentro da cultura local, usando estratégias, entre elas a esportivização, observados tanto na LM (Lopes Campos et al., 2018; Antunes et al., 2021; Lopes Campos & Antunes, 2021) quanto na Galhofa (Branco Telles et al., 2022), e regulamentações para inclusão na educação física escolar no caso da LM (Lopes Campos et al., 2019; Lopes Campos & Antunes, 2021) e como disciplina obrigatória no ensino superior da faculdade de educação de Bragança/ Portugal, no caso da Galhofa (Branco Telles et al., 2022).

Neste sentido, A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que é um documento oficial da educação brasileira, apresenta quatro blocos de conteúdos para o trabalho nas escolas, quais sejam: 1- lutas comunitárias; 2- lutas indígenas e afro-brasileiras; 3- lutas do brasil; e 4- lutas do mundo, onde as atividades motoras, os jogos de luta, modalidades específicas de esportes de combate ou conteúdos teóricos reflexivos das ciências humanas, ciências biológicas e ciências exatas podem permitir, através das lutas, artes marciais e esportes de combate, possam adquirir habilidades e competências destas práticas corporais como defesa-pessoal, autoconhecimento e prevenção-promoção da saúde ou o autocuidado até a transferência dos princípios, conhecimentos e valores das mesmas para a vida em sociedade (Mocarzel et al., 2023), incluindo a luta Tarracá.

Para Castro–González & Guerrero-Henríquez (2023); Matus et al. (2024) a aplicação de metodologias abrangentes no ensino de esportes colaborativos e de oposição como as lutas no contexto da educação física escolar melhora a qualidade das ações de jogo em comparação com um modelo de ensino tradicional, o que pode corroborar a inserção da luta Tarracá como possibilidade de ALC na unidade temática de lutas da educação física escolar.

Entretanto, o Tarracá parece ter perdido espaço na cultura maranhense, consequentemente, na brasileira e possivelmente, as novas gerações podem não conhecer essa rica ALC do estado do Maranhão/brasileiro, o que dessa maneira dificultará ou mesmo impossibilitará que outros estados de outras regiões do Brasil e também outros países possam conhecer essa rica manifestação da cultura brasileira que envolve as lutas originárias. Nesta perspectiva, o estado do maranhão necessita estabelecer ações estratégicas, como aproveitar o caráter competitivo apresentado na análise deste estudo, para incentivar uma possível esportivização do Tarracá, como realizado na LM e Galhofa (Lopes Campos & Antunes, 2021; Branco Telles, et al., 2022) para não permitir que esta importante e valorosa atividade da cultura maranhense e brasileira, que uniu a comunidade com lações de amizade entre os moradores da localidade, se torne somente uma lembrança dos antigos moradores de localidades da baixada e ribeirinhas esquecida na história maranhense, como no caso do participante idoso deste estudo.

Dificuldades e Limitações do estudo
Foi identificado como limitação desta pesquisa, o fato de ser um estudo realizado com um único voluntário. Outro ponto que pode ser considerado uma limitação foi o fato do voluntário ter um laço de parentesco com o autor principal deste artigo. Para diminuir o risco de viés, tanto a coleta dos dados como as análises foram realizadas pelos pesquisadores que não possuíam qualquer contato com o voluntário pesquisado. Além disso, as localidades distantes com difícil acesso, os poucos idosos que ainda podem dar informações valiosas sobre essa importante temática, também contribuem para a dificuldade e limitação desta pesquisa. Mas que também, podem justificar a apresentação desta pesquisa de um único caso.


CONCLUSIÓN

O presente estudo mostrou que a luta Tarracá é uma manifestação endêmica usada na cultura do norte maranhense com caráter lúdico, ou seja, como um jogo/brincadeira realizada pelos jovens do passado. O termo Tarracá ainda precisa de melhores esclarecimentos sobre seu significado. Embora, haja uma explicação na literatura, que faz sentido para o objetivo da luta que de acordo com o que foi analisado nesta pesquisa tinha a intenção de prender para derrubar, mantendo preso no solo. O apelido é outra simbologia que também merece atenção para seu significado.

Outra observação importante neste estudo foi a quantidade de técnicas ou golpes de projeção/derrubada com nomenclaturas próprias e outras semelhantes a LM. As regras básicas observadas nesta luta, não estabeleceu um tempo limite, um espaço delimitado ou técnicas proibidas. Porém, o local necessariamente, precisava ser de amortecimento, então a areia ou mato baixo estão nestes espaços.

Dessa forma, este estudo mostra uma cultura potencial que deve ser mostrada como parte dos conteúdos das lutas comunitárias e regionais na disciplina de educação física das escolas brasileiras, antes, que seja perdida e/ou esquecida na oralidade das pessoas idosas, não sendo mais conhecida pelas novas gerações. Por esse motivo, novos estudos são recomendados, com um número maior de voluntários que possam esclarecer mais detalhes sobre essa, importante luta originária brasileira oriunda do estado do Maranhão/Brasil, chamada Tarracá e/ou Atarracá.


AGRADECIMIENTO

Este estudo é dedicado a toda a comunidade remanescente da ilha de Cajual dos Pereiras, aos moradores da cidade de Apicum-Açu e as vilas de Itereré e Turirana no Maranhão, Brasil.

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Dirección para correspondencia
Borba-Pinheiro, Claudio Joaquim
Doutor em Ciências
Universidad del Estado de Pará
Brasil
ORCID:  https://orcid.org/0000-0002-9749-5825
correo electrónico: claudioborba18@gmail.com
Recibido: 21-03-2025
Aceptado: 07-09-2025

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